Em muitos condomínios, restaurantes e indústrias de BH, o gás não chega pelo cano da rua nem em botijão trocado: chega num caminhão-tanque, que enche o tanque da central ali mesmo. Esse é o abastecimento de GLP a granel. A operação leva pouco tempo e quase sempre corre sem problema, mas é um dos momentos em que a central fica mais exposta. Há gás líquido passando por mangueira, um veículo parado perto da edificação e gente circulando em volta. Este guia explica quem responde pelo quê, o que o zelador ou o responsável pela cozinha deve olhar no dia da recarga e o que deixa a central pronta para receber o caminhão.
O que é o abastecimento de GLP a granel e por que a recarga pede atenção
No sistema a granel, o GLP (gás liquefeito de petróleo, o mesmo do botijão) fica num recipiente estacionário, um tanque fixo instalado na central do prédio ou da empresa. Quando o nível baixa, a distribuidora manda o caminhão abastecedor, que transfere o gás líquido para o tanque por uma mangueira. A Resolução ANP nº 931/2023 chama isso de “transvasamento” e define o sistema de abastecimento a granel como a passagem do GLP contido no veículo abastecedor para os recipientes estacionários de uma central.
O ponto sensível é a transferência: conexões sendo abertas e fechadas, gás sob pressão na mangueira e um caminhão carregado perto da edificação. Um vazamento somado a uma fonte de ignição (cigarro, chama, faísca de motor ou tomada) é o cenário a evitar.
Belo Horizonte já teve um caso assim. Em 12 de março de 2025, uma explosão deixou quatro pessoas com queimaduras numa cozinha industrial no bairro Paraíso, na região Leste. Segundo os bombeiros ouvidos pelo Hoje em Dia, o fato ocorreu “durante o abastecimento de botijões de grande porte, por caminhão de GLP, em uma central de gás”, e teria havido “um possível vazamento seguido da explosão do ambiente”. A causa exata cabe à perícia; o caso lembra que recarga não se faz no automático.
No fim de ano, restaurantes, buffets e cozinhas industriais trabalham mais. Em pesquisa divulgada em novembro de 2024, a Abrasel já apontava expectativa de vendas maiores no período, puxadas pelas festas, pelas férias e pelo 13º salário (Jovem Pan). Mais consumo, mais caminhão na porta.
O que dizem as regras: Resolução ANP 931/2023, NBR 14024 e IT 23
Três documentos organizam o assunto e se completam.
Resolução ANP nº 931/2023 (regra federal)
A Resolução ANP nº 931, de 5 de outubro de 2023, em vigor desde 10 de abril de 2024 (art. 15), trata do projeto, da construção e da operação de transvasamento dos sistemas a granel. Os pontos que mais interessam a quem recebe o caminhão:
- Local do caminhão no projeto (art. 3º): o projeto da central deve marcar na planta onde o veículo abastecedor vai operar. Quando não houver espaço dentro da propriedade, a operação pode ser feita na via pública, com sinalização e respeitando as regras do município.
- Projeto e obra com engenheiro e ART (arts. 4º e 5º): a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) é o registro no CREA que identifica o engenheiro responsável.
- Inspeção antes de abastecer (art. 7º): a operação deve ser precedida das inspeções previstas nas normas técnicas.
- Orientação ao cliente (art. 7º, § 1º): a distribuidora deve orientar o consumidor sobre posicionamento e aterramento do caminhão, sinalização, uso de extintores e o que fazer em caso de acidente.
- Dois operadores, no mínimo (art. 9º, VII), e assistência técnica 24 horas (art. 9º, III).
- Troca de distribuidora (art. 10): quem assume o abastecimento passa a responder pela operação e pelas instalações em uso, providencia nova ART e faz teste de estanqueidade.
- Suspensão na hora (art. 12): se a distribuidora encontrar irregularidade na instalação, suspende o fornecimento imediatamente e informa o motivo ao cliente.
ABNT NBR 14024 (norma técnica da operação)
A NBR 14024, “Central de gás liquefeito de petróleo (GLP) – Sistema de abastecimento a granel – Requisitos e procedimento operacional”, é a norma que detalha como a transferência deve ser feita. A própria Resolução ANP 931/2023 a lista entre as normas obrigatórias, ao lado da NBR 13523, que trata da central de GLP.
IT 23 do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais
Em Minas Gerais, a Instrução Técnica 23 do CBMMG ganhou a 3ª edição, aprovada pela Portaria nº 83/2026 e publicada em agosto de 2026. O item 7.25 trata do abastecimento a granel e manda observar a NBR 14024 e a Resolução ANP 931/2023, além de regras próprias para a mangueira e para o caminhão, que aparecem no checklist mais abaixo. O item 7.25.5 pede que o local do veículo abastecedor seja incluído no projeto. Quem tem central a granel deve conferir se o AVCB e o projeto de incêndio estão de acordo com a edição em vigor.
Quem faz o quê no dia da recarga
Pela Resolução ANP 931/2023, a distribuidora responde pelas instalações até o primeiro regulador de pressão da linha que ela abastece (art. 6º, § 1º), e o cliente acompanhar a operação não tira dela a responsabilidade (art. 7º, § 3º). Mas o cliente também tem a sua parte.
| Quem | O que cabe a cada um |
|---|---|
| Distribuidora | Operar a transferência com pessoal treinado, inspecionar antes de abastecer, orientar o cliente, inspecionar periodicamente os tanques que abastece e suspender o fornecimento se achar irregularidade. |
| Condomínio ou empresa | Liberar o acesso e o local do caminhão, manter a central limpa e sinalizada, com extintores no lugar, afastar pessoas e fontes de ignição e cuidar da rede depois do regulador. |
| Engenheiro responsável | Projeto da central e da rede, testes, laudo e ART, além das adequações exigidas pelo Corpo de Bombeiros. |
A rede interna que leva o gás da central até os apartamentos ou até a cozinha fica com o cliente. É nela que entram o teste de estanqueidade da central de GLP e a manutenção periódica.
Checklist do abastecimento de GLP a granel para o zelador ou responsável
O operador conduz a transferência, mas quem conhece o prédio ou a cozinha é você.
Antes de o caminhão chegar
- Deixe livre o espaço previsto para o caminhão, para ele não parar em lugar improvisado.
- Confira se a área da central está limpa. A IT 23 proíbe guardar qualquer material combustível na área da central ou deixar vegetação ali (item 7.16).
- Veja se os avisos “PERIGO”, “INFLAMÁVEL” e “NÃO FUME” estão visíveis (item 7.14 da IT 23).
- Confirme que os extintores estão no lugar, carregados e fora da central, a no máximo 5 metros dela, como pede o item 7.8 da IT 23.
- Avise moradores ou a equipe da cozinha sobre o horário da recarga.
Durante a transferência
- Ninguém fumando nem usando chama por perto. A IT 23 proíbe que a mangueira passe a menos de 6 metros de chamas abertas e a menos de 3 metros de fontes de calor como fornos e caldeiras (item 7.25.1).
- A mangueira não pode atravessar ambiente interno da edificação nem passar onde carros circulam por cima dela sem proteção (item 7.25.1).
- Pela IT 23, o caminhão fica a pelo menos 1,50 m do tanque ou do ponto de abastecimento, 1,50 m de ralos, bueiros e aberturas no chão e 3,0 m da projeção de qualquer edificação (item 7.25.2). Ele também deve ficar posicionado de forma a sair rápido em caso de emergência (item 7.25.3).
- Se o caminhão estiver na rua ou junto à passagem de pessoas, a área deve estar sinalizada e isolada, sem bloquear a rota de fuga (item 7.25.4).
- Mantenha curiosos afastados e avise o operador se notar algo estranho.
Depois da recarga
- Confira o comprovante: quantidade abastecida e dados da operação.
- Verifique se a central foi fechada e se a tomada de abastecimento ficou tampada e protegida.
- Fique atento a cheiro de gás nas horas seguintes, na central e nos pontos de consumo.
Sinais de problema na recarga e o que fazer
O GLP tem cheiro forte de propósito: recebe uma substância odorante para que o vazamento seja percebido. Durante ou logo depois do abastecimento, fique atento a:
- cheiro de gás forte e persistente, que não some quando a operação termina;
- chiado em conexões, válvulas ou na mangueira;
- gelo ou névoa branca fora do comum em conexões, sinal de gás líquido escapando;
- mangueira do caminhão ressecada, rachada ou com remendo;
- operador trabalhando sozinho, sem sinalização ou sem extintor por perto.
Se perceber vazamento, peça ao operador que interrompa a transferência, afaste as pessoas, não acione interruptores, motores ou celulares perto da área e ligue para o 193. Não tente consertar nada sozinho. Depois, registre o ocorrido com a distribuidora e peça avaliação técnica da central antes da próxima recarga.
O que deixa a central pronta para receber o caminhão
Como a distribuidora pode suspender o fornecimento ao achar irregularidade (art. 12 da Resolução ANP 931/2023), uma central malcuidada pode deixar o prédio ou a cozinha sem gás na véspera de um feriado. Os pontos que mais pesam:
- Estanqueidade da rede: teste periódico para garantir que não há vazamento entre a central e os pontos de consumo.
- Reguladores e válvulas em dia: peças vencidas ou com desgaste comprometem a segurança. Veja quando substituir reguladores e válvulas na central de GLP.
- Afastamentos respeitados: a central precisa manter as distâncias mínimas de aberturas, ralos e divisas. Entenda melhor em distância mínima da central de gás GLP.
- Ponto de abastecimento conservado: quando o tanque fica sobre laje ou cobertura a mais de 9 metros do solo e o operador não consegue ver a mangueira inteira, a IT 23 pede uma linha de abastecimento externa, com tomada protegida e identificada (item 7.23.15).
- Sinalização, extintores e área limpa: itens simples que o operador vê logo que chega.
- Documentação: projeto, laudo e ART atualizados, e AVCB coerente com a instalação real.
Se a sua central ainda usa cilindros P-190 abastecidos no local, o guia tudo sobre central de gás P-190 explica o funcionamento. Para restaurantes e cozinhas industriais, o projeto de gás para cozinha industrial em BH mostra como a central e a rede devem ser dimensionadas.
Perguntas frequentes
Quem é responsável se algo der errado durante o abastecimento?
A operação é da distribuidora. Pela Resolução ANP 931/2023, ela responde pelas instalações até o primeiro regulador de pressão e não deixa de ser responsável porque o cliente acompanhou o serviço. A rede depois do regulador e a conservação da central são do condomínio ou da empresa.
A distribuidora pode se recusar a abastecer minha central?
Pode. Se encontrar irregularidade na instalação, ela deve suspender o fornecimento imediatamente e informar o motivo (art. 12 da Resolução ANP 931/2023). A saída é corrigir o problema com um profissional habilitado e documentar a correção.
O caminhão pode abastecer parado na rua?
Pode, quando não há espaço adequado dentro do terreno. A resolução da ANP admite a operação na via pública com sinalização e respeito às regras municipais, e a IT 23 exige que a área fique sinalizada e isolada, sem atrapalhar a rota de fuga.
Troquei de distribuidora. Preciso fazer alguma coisa?
A nova distribuidora assume a operação e as instalações em uso e precisa providenciar nova ART e teste de estanqueidade (art. 10 da Resolução ANP 931/2023). Vale pedir cópia desses documentos e guardar com o projeto da central.
Sua central está pronta para a próxima recarga?
O abastecimento de GLP a granel é seguro quando a central está em ordem, o caminhão para no lugar certo e todo mundo sabe o seu papel. A Engethink Engenharia inspeciona a central, faz o teste de estanqueidade, corrige o que for preciso e entrega laudo com ART para condomínios, restaurantes e indústrias de Belo Horizonte e região, sob responsabilidade do Eng. Felipe Wagner Andrade Abreu, engenheiro mecânico, CREA-MG 106036/D. Engenheiro responsável, laudo e ART: a Engethink assina embaixo.
Quer deixar a central pronta antes do movimento de fim de ano? Fale com a Engethink pelo WhatsApp (31) 98422-1807 e agende a avaliação.
